Emissões de CO2 sobem mais – Destaque: Energia Solar

Pedro Santos Guerreiro (à esq.) moderou o debate em que participaram Maria João Coelho, Peter Mather, António Sá da Costa e Anne-Sophie Corbeau (da esq. para a dir.)

Estudo; Relatório da BP diz que aumento em 2017 foi de 1,6%, depois de três anos consecutivos a crescer menos de 1%

Quando se fala que o mundo está em transição energética e que é preciso reduzir as emissões de CO2 para controlar os efeitos das alterações climáticas, isso significa que há cada vez mais um esforço da economia e da sociedade em usar energias limpas, como as renováveis, em vez das mais poluentes, como o carvão. Mas esse esforço, que tem sido significativo nos últimos anos, ainda não está a ter os efeitos práticos que se esperava. Aliás, neste caminho para a chamada descarbonização têm havido altos e baixos. E no ano passado foi isso que aconteceu, pelo menos segundo o “BP Statistical Review of World Energy 2018”, que faz um retrato do sector no ano anterior.

De acordo com o estudo, que foi apresentado esta terça-feira no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, numa conferência organizada em parceria com o Expresso, em 2017, as emissões de CO2 registadas nas centrais de produção de energia subiram 1,6%, depois de três anos consecutivos, entre 2014 e 2016, a crescer pouco ou nada.

“Isto é um grande passo atrás”, escreve no documento o economista-chefe da BP, Spencer Dale. E, de facto, dá que pensar.

Há cada vez mais energias renováveis em todo o mundo, por exemplo, no ano passado continuaram a crescer a dois dígitos, mais precisamente 17%, com destaque para a energia solar. “Em 2017 adicionaram-se mais 100 GW de nova capacidade solar no mundo, e cerca de metade foi na China”, disse a responsável pela área de análise do mercado de gás natural da BP, Anne-Sophie Corbeau, na sua apresentação na conferência. E o uso de gás natural nas centrais elétricas em substituição do carvão tem vindo a aumentar, e no ano passado o crescimento foi notável: 3%, o “mais rápido desde 2010”, acrescentou. Mas mesmo assim as emissões aumentam. Ou seja, tal como se diz no estudo, “dão-se dois passos à frente e um atrás”.

Porque subiram as emissões? 
Há vários fatores a explicar o aumento das emissões de carbono. Um deles foi o facto de a economia mundial ter melhorado e, por causa disso, a produtividade também ter aumentado, principalmente em atividades com um elevado consumo de energia. E o outro é uma consequência do primeiro: aumentou o consumo de energia primária. Foram mais 2,2% em 2017, o maior crescimento desde 2013, segundo o estudo da BP. O problema foi que se recorreu mais ao carEstudo Relatório da BP diz que aumento em 2017 foi de 1,6%, depois de três anos consecutivos a crescer menos de 1% Emissões de CO2 sobem mais vão para colmatar essas necessidades de energia, de tal forma que o consumo deste combustível cresceu 1% no ano passado, o que já não acontecia desde 2013.

Consequentemente, escreve ainda Spencer Dale no estudo, o mix de fontes de energia usadas na produção elétrica está praticamente igual ao que estava há 20 anos. Aquilo que o economista-chefe da BP diz ser “o mais grave e preocupante gráfico de todo o ‘Statistical Review’”. “Grave porque, apesar do extraordinário crescimento em renováveis, o peso do carvão no mix das fontes de energia usadas na produção de energia é de 38%, o mesmo que em 1998. E preocupante porque a produção de eletricidade representa 1/3 de todas as emissões de carbono no mundo”, pode ler-se no estudo.

Mas para o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), António Sá da Costa, outro dos convidados da conferência, há outros fatores a contribuir para este recuo nas emissões. “Temos um consumidor que não se preocupa com o que está por trás quando liga a luz ou abastece o carro. Falam em eficiência, mas não fazem as contas. Por exemplo, mudam as lâmpadas porque há incentivos ou porque está na moda e só mudam de frigorífico quando ele se avaria, mas ao longo dos anos ele vai perdendo eficiência e vai gastando mais”, salientou. Ou seja, é preciso haver um esforço sério para descarbonizar e mostrar às pessoas os verdadeiros ganhos que se pode ter, diz.

Apostar no gás natural 
As renováveis e a eficiência energética são dois dos caminhos para reduzir as emissões, mas a aposta no gás natural também. Aliás, é por isso mesmo que o estudo considera o aumento do consumo de gás registado no ano passado como uma passo em frente.

“Se o mundo substituir apenas 1% da produção de energia através de carvão por 1% de energia produzida através de gás natural, isso seria equivalente a um aumento de 10% no uso de energias renováveis. Ou seja, é bom apostar nas renováveis como meio para atingir a descarbonização, mas também é importante a transição do carvão para o gás”, defendeu o vice-presidente da BP para a Europa, Peter Mather, também um dos oradores.

Aliás, para este responsável, a prova de que o uso do gás natural tem um grande peso na redução de emissões são os EUA. É verdade que reforçaram a produção através de energias renováveis, mas foi por causa do aumento da produção de gás de xisto e do consequente uso de gás na produção de energia que as emissões de CO2 nos EUA têm estado a cair a uma média de 1,2% ao ano entre 2006 e 2017. “Ninguém estava à espera disto”, comenta Peter Mather.

A vice-presidente da Agência para a Energia (ADENE), Maria João Coelho, concorda que não se pode apostar apenas numa solução para se conseguir alcançar as reduções de emissões pretendidas e atingir as metas do Acordo de Paris. “Estamos num fasing out das centrais de carvão, e em 2020 ou 2030 elas já não vão existir, mas há que olhar para a segurança de abastecimento. Não chegaremos a 100% renovável, porque terá sempre de haver uma componente térmica”, disse. E, de facto, o gás natural é a melhor opção, porque, apesar de ser um subproduto do petróleo, um combustível fóssil, é menos poluente do que o carvão.

Em suma, disse Peter Mather, “não podemos escolher uma solução única à partida. O melhor é deixar os mercados e as tecnologias seguir o seu caminho”, concluiu.

SETE PERGUNTAS A
ANNE-SOPHIE CORBEAU
RESPONSÁVEL PELA ÁREA DE ANÁLISE DO MERCADO DE GÁS NATURAL DA BP

O estudo fala em dois passos à frente e um passo atrás. Como é que se faz para evitar que haja mais passos atrás?

Isso vai ser sempre assim. Vai haver sempre eventos que vão alterar o rumo do que estamos a fazer, tal como aconteceu agora. Por exemplo, o aumento do consumo de carvão no ano passado — que contribui para o aumento das emissões de carbono — teve muito a ver com a China, que recorreu mais a este combustível porque teve maiores necessidades de energia e o carvão é, ainda, mais barato. Mas temos de olhar para este processo a longo prazo.

O estudo refere ainda que uma das situações mais graves verificadas em 2017 foi o facto de o mix de fontes de energia usadas na produção elétrica ser o mesmo de há 20 anos. Porque é que isso é grave?

Um dos sectores mais importantes para a descarbonização é o da produção de energia. Só ele consome 40% da energia primária e tem mesmo de ser descarbonizado. É uma prioridade.

A ideia é que o carvão seja cada vez menos usado…

Sim, e é o que se está a fazer, mas é mais fácil falar. Nos EUA foi possível fazer isso em apenas 10 anos, mas porque eles descobriram fontes massivas de gás natural. E até a China está focada em reduzir o uso de carvão e a apostar muito no gás natural e nas renováveis. Veja-se que dos 100 GW de nova energia solar que foi instalada, metade foi na China. Só que, por exemplo, na Índia ainda se usa muito o carvão, e no Sudoeste Asiático também, porque é mais barato. Mas todos os países têm de fazer algo para mudar.

Quer isto dizer que o processo de transição energética e de descarbonização não vai ser rápido?

É um desafio no qual todos temos de nos comprometer, e na BP estamos a fazer isso e estamos a apostar mais na produção de gás natural, que é um combustível com menos emissões de carbono. O mais importante é que as emissões desçam.

Mas no ano passado elas subiram e só por causa do crescimento da economia…

Sim, mas também houve um aumento do consumo de carvão e menos melhorias na intensidade da energia consumida. Tudo isto junto é que contribui para as emissões.

Ter um preço geral para o carbono ajudaria a baixar as emissões?

Isso definitivamente ajudaria na transição do carvão para o gás, porque emite menos carbono, logo as empresas pagariam menos para emitir.

E ter um preço maior no carvão?

Isso é o mercado que dita. É mais fácil taxar as emissões de carbono.

Textos originalmente publicados no Expresso de 14 de julho de 2018

FONTE – expresso.sapo.pt

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